domingo, 30 de novembro de 2008

Estranhos vizinhos



O cenário musical argentino, suas influências e nosso desconhecimento.





Berço de Carlos Gardel, Maradona, Che Guevara, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, a Argentina vive hoje sob uma imensa gama de ritmos e sons que misturam poesia, protestos e situações cômicas em suas letras. E apresentam por resultado final uma excelente demonstração de qualidade musical e, além disso, de valorização de sua musica nacional, sua língua e sua história.

Quem pensa que nossos vizinhos argentinos só escutam tango e todas aquelas músicas dos tempos de nossos avós, está muito enganado. Contemporaneamente a música argentina vem se transformando e se reformando em um novo cenário musical, que não deixa de ser influenciado por sua história musical. Influenciados, sobretudo, pelo tango de Carlos Gardel e dos ritmos latinos, o rock argentino é o estilo mais escutado pelos jovens, seguidos pelo reggaeton, o reggae e a cumbia; estilos predominantes nas rádios, nos boliches (nas baladas) e no gosto de “nuestros hermanos”.

Tangueiro e ator conhecido no mundo todo, e cuja voz foi decretada como patrimônio da humanidade pela UNESCO,Carlos Gardel foi o grande mestre da música argentina nas décadas de 20 e 30, servindo como influência, não apenas musical, para as gerações seguintes . Sua voz forte e um pouco triste serviu de inspiração a diversos grupos, que se guiavam nos clássicos como “por una cabeza” e “mi Buenos Aires querida” para construir canções de protestos ou apoio ao governo nos anos 60 e às letras de cunho ideológico nos anos 70.


Ainda hoje Carlos Gardel é respeitado por toda a nação argentina e continua servindo como inspiração a grupos de rock contemporâneos. O estilo da voz de Gardel se faz presente em grupos mais populares como “Las pastillas del abuelo” , que, ao som do rock clássico, utilizam letras cômicas para falar de situações cotidianas e, como todo bom argentino, fazer críticas ao governo e a atual situação do país. Segundo o jornalista brasileiro, Marcelo Evangelista “A música na Argentina, independente do gênero, é mais critica, mesmo porque o argentino é mais critico, diferente do Brasil em que o sentimento que prevalece nas canções é o amor”, disse.

Também se destacam no rock nacional argentino as bandas “Intoxicados” e “Los Piojos”, que têm estilos semelhantes e, além de letras de amor, também fazem críticas sociais através de letras cômicas. Outra semelhança entre essas bandas são suas influências no rock norte-americano e europeu, misturado a estilos latinos como o tango, a cumbia e outros.

Outra banda, que não é tão popular na Argentina por estar dentro do cenário independente, é The Tormentos, banda conhecida no cenário independente de rock na Argentina e faz um surf music com as características caribenhas e com temática nas trilhas tarantinas. Ela vem ao Brasil se apresentar no maior festival de bandas independentes do país. De acordo com Evangelista, a relação entre a música brasileira e argentina se distancia pela influência da música norte-americana e européia nos respectivos países, o que ofusca a ascensão dos grupos e bandas que arriscam uma progressão nesse espaço”.

O reggaeton, uma mistura do reggae jamaicano com o rap norte americano, teve origem nas cidades de grande concentração de imigrantes latinos nos Estados Unidos. Esse ritmo com batidas mais fortes que o reggae jamaicano invade as pistas de dança argentinas e de todos os outros países latino americanos, exceto o Brasil. Na Argentina, e nos outros países latino americanos, as bandas mais populares são Calle 13, La Factoria e outros.

O reggae argentino está em alta em todo o país, ganhando força total em todo território argentino, sobretudo na capital Buenos Aires. O estilo jamaicano, já conhecido em todo o mundo, ganhou em suas versões argentinas uma grande aliada ao ritmo, a língua. O castelhano, ou espanhol como preferir, se encaixa ao reggae, talvez pela melodia ou ritmo, formando na opinião de muitos, “uma perfeita união” como diz Nicolas Perez, argentino, 23 anos. As bandas que mais fazem sucesso nesse gênero são Los Cafres, Nonpalidece, Gondwana e outros.

A cumbia, música que teve origem na Colômbia, também é muito escutada pelos argentinos, sobretudo em festas e casas noturnas. Seu ritmo latino e dançante, faz grande sucesso entre os argentinos e entre os turistas que visitam nossos vizinhos e acreditam que a Cumbia é originária da Argentina de tão popular que o ritmo é em todo território platense. Esse ritmo ficou um pouco conhecido também no Brasil, quando o jogador de futebol Carlitos Tevez. comemorava seus gols aos paços da cumbia. As bandas que mais fazem sucesso nesse gênero são Yerba Brava, Cumbia Villera e outras.

Diverso, atual, eclético. Assim se caracteriza o cenário musical argentino, que apesar de ter grandes qualidades técnicas e estruturais é pouco desfrutada no Brasil. “Aqui sempre procuramos o que vem de cima, do hemisfério norte, por parecer mais atual, de melhor qualidade. Acabamos nos esquecendo de olhar pro lado, para o lado mesmo, e ouvir e conhecer o que há de melhor nos nossos vizinhos que têm uma história muito parecida com a nossa” diz Julio César Pinto, brasileiro e professor de salsa na argentina. Apesar da proximidade física entre Brasil e Argentina, nossos vizinhos nos tornam desconhecidos, estranhos e parecem cada vez mais distantes.